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Avanço do crime organizado napolítica e setor financeiro ameaça democracia no Piauí

Justiça Eleitoral criou o Comitê de Segurança das Eleições 2026 que vai atuar principalmente com foco no combate à participação de facções criminosas e na compra de votos. Especialistas apontam necessidade de reforço na legislação.

15/06/2026 às 16h40

A infiltração do crime organizado na política e no setor financeiro piauiense, que era apenas um alerta nas vésperas das últimas eleições municipais, tornou-se um risco efetivo, com vereadoras eleitas em 2024 investigadas e julgadas por participação em facções criminosas na compra de votos, como a vereadora Tatiana Medeiros (PSB), em Teresina, condenada a 19 anos, 10 meses e sete dias de prisão pelos crimes de organização criminosa, corrupção eleitoral, peculato-desvio, falsidade ideológica eleitoral e lavagem de dinheiro. Ela está presa desde abril de 2025.

Especialistas defendem mudanças na base legal para garantir segurança jurídica para combater facções. - (Arquivo Agência Brasil) Arquivo Agência Brasil
Especialistas defendem mudanças na base legal para garantir segurança jurídica para combater facções.

O caso mais recente, ainda em investigação, ocorreu em janeiro deste ano no município de Piracuruca, ao norte do estado, quando a Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão e determinou o afastamento de servidores públicos na terceira fase da Operação Escudo Eleitoral, da qual Tatiana Medeiros também foi alvo. Nesta última etapa, as investigadas foram a vereadora Adriana Enfermeira e uma servidora da Assembleia Legislativa do Piauí (Alepi); a parlamentar foi apenas afastada do cargo enquanto as investigações seguem em curso.

Nacionalmente, há uma grande preocupação por parte dos órgãos de segurança, do governo federal e do Judiciário com o avanço do crime organizado na política e no setor financeiro. Em 2025, a Operação Carbono Oculto 86, desdobramento de outra operação em nível nacional, revelou um braço financeiro do PCC no Piauí: o grupo, com origem em São Paulo, teria expandido sua atuação para o setor de combustíveis, utilizando empresas de fachada, fundos de investimento e laranjas para movimentar uma cifra próxima de R$ 2 bilhões.

TRE-PI cria comitê de segurança para combater candidaturas de faccionados

Com esses casos, o crime organizado, que antes se limitava a controlar territórios e economias ilegais no Piauí, tem avançado sobre o próprio Estado, mirando o controle institucional de decisões e também a destinação dos recursos públicos. Por essa razão, o Tribunal Regional Eleitoral do Piauí (TRE-PI) criou um Comitê de Segurança das Eleições de 2026, que reúne a Polícia Federal, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e as Polícias Civil e Militar do estado para, em ação conjunta, criar medidas que possam garantir a segurança das eleições no estado, com prioridade no combate a candidaturas ligadas a facções criminosas e à compra de votos.

Presidente do Comitê de Segurança da Eleições, juiz Paulo Roberto de Araújo Barros. - (TRE-PI) TRE-PI
Presidente do Comitê de Segurança da Eleições, juiz Paulo Roberto de Araújo Barros.

Em entrevista à imprensa, o juiz Paulo Roberto de Araújo Barros, presidente do Comitê, confirmou que as facções criminosas serão a maior preocupação do TRE-PI nestas eleições. "O comitê de segurança teve o seu escopo aumentado exatamente para observarmos esse fato", disse.

Compõem ainda o comitê representantes do Ministério Público Eleitoral, da Procuradoria de Justiça do Estado do Piauí, da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) no Piauí, da Secretaria de Segurança Pública do Estado do Piauí, da Corregedoria Regional Eleitoral do Piauí e agentes da Polícia Judicial do TRE.

Especialistas defendem mudanças na base legal para garantir segurança jurídica para combater facções

O Jornal O Dia conversou com o pós-doutor em Direito Processual Penal e Direitos Humanos Fauzi Hassan Choukr e com o também pós-doutor em Ciência Política e professor da Universidade Federal do Piauí (UFPI) Cleber de Deus para entender esse fenômeno que tem ocorrido no estado, além do panorama geopolítico diante da determinação do presidente estadunidense Donald Trump de considerar essas organizações criminosas brasileiras como terroristas.

Segundo Hassan, o crime organizado tem se sofisticado na prática criminosa, e essa sofisticação torna necessária uma reorganização dos aparatos repressivos por parte do Estado, além de uma readequação da legislação para enfrentar essas novas modalidades de práticas criminosas. Ele avalia, no entanto, que há, no que diz respeito aos aparatos repressivos, uma ausência no direito brasileiro de um sistema que possa integrar as forças policiais e de inteligência no combate a esses grupos.

Fauzi Hassan Choukr, pós-doutor em Direito Processual Penal e Direitos Humanos. - (Arquivo Pessoal) Arquivo Pessoal
Fauzi Hassan Choukr, pós-doutor em Direito Processual Penal e Direitos Humanos.

"Como nós temos uma imensa necessidade de fazer um devido enfrentamento à criminalidade moderna, entendo que seria necessário construir uma base legal que nos desse segurança jurídica, segurança operacional e inquestionabilidade de aproveitamento de meios de prova por meio da integração da atuação dos órgãos repressivos", afirmou.

O Governo Federal recentemente havia tentado a construção de um “SUS” da segurança pública, iniciativa que teve reações contrárias de alguns governadores, principalmente de Ronaldo Caiado, de Goiás, que viu nela uma perda de autonomia dos estados. No campo do endurecimento contra as organizações criminosas, o governo conseguiu aprovar a Lei Antifacção, que endureceu as penas para pessoas ligadas ao crime organizado e a milícias no país, podendo chegar a 40 anos de prisão.

Para o professor Cléber de Deus, o chamado “SUS da Segurança Pública” se colocou como uma tentativa do governo federal de centralizar a segurança pública no país, com a proposta de integrar forças como a Polícia Federal e as polícias estaduais sob uma mesma diretriz e regência. Ele, no entanto, expressou preocupação de que a federalização se resuma a meros repasses de recursos, o que poderia abrir margem para a corrupção sem necessariamente desestruturar as redes criminosas.

Cleber de Deus, pós-doutor em Ciência Política e professor da Universidade Federal do Piauí (UFPI). - (Daniel Pessoa / O Dia) Daniel Pessoa / O Dia
Cleber de Deus, pós-doutor em Ciência Política e professor da Universidade Federal do Piauí (UFPI).

"Se o governo federal não teve condições de até então lidar com a segurança pública, como é que fazendo um plano em uma espécie de PAC da segurança pública daria certo agora, como é que seria esse processo de federalização? Isso é uma coisa que eu particularmente me pergunto. É só recurso? Porque se for recurso, entra o elemento mais complicado da corrupção", disse.

Avanços das organizações podem desestruturar Estado de Direito, ressaltam estudiosos

De acordo com Hassan, o Brasil, após a Operação Carbono Oculto, que teve desdobramentos no Piauí, começou a construir esses mecanismos institucionais de combate ao crime organizado, mas ainda há necessidade de uma integração de forças entre a Receita Federal, o Banco Central, os ministérios públicos, as polícias federal e estaduais e mecanismos como o Coaf.

Rede de Postos HD, alvo da Carbono Oculto recebeu R$ 33 milhões de empresa ligada à fraude do INSS - (SSP PI) SSP PI
Rede de Postos HD, alvo da Carbono Oculto recebeu R$ 33 milhões de empresa ligada à fraude do INSS

"Uma verdadeira imersão do crime organizado na economia formal, exige não só um aparato legislativo, com normas, leis, leis penais que possam ser úteis no combate a este tipo de criminalidade, como também um aparato específico de repressão, a dizer, uma atuação coordenada e integrada entre os vários segmentos do Estado que possam ser úteis.", disse.

O professor Cléber de Deus analisa que o avanço dessas organizações criminosas nas eleições e no setor financeiro passa por uma desestruturação do Estado de Direito, em que o crime organizado, que agora internacionalmente possui status de grupo terrorista, se utiliza de um vasto poder econômico para financiar candidaturas e influenciar questões jurídicas e de políticas públicas.

Cleber aponta que esse cenário cria o que chama de “um cartel dentro do Estado”, em que a competição desequilibrada, com aportes de recursos ilícitos em campanhas, pode fazer com que o crime controle quem pode ser eleito ou como a política deve funcionar, fazendo com que a democracia perca sua substância e possa se tornar apenas uma fachada enquanto o poder paraestatal dita as regras.

As facções criminosas tem ido além dos crimes nas ruas, e se inserido na política e setor financeiro.  - (Divulgação/Polícia Civil) Divulgação/Polícia Civil
As facções criminosas tem ido além dos crimes nas ruas, e se inserido na política e setor financeiro.

"A ameaça maior é com relação ao estado de direito, porque se há isso... isso as eleições passam a ser eleições fictícias, pois você tem um poder paraestatal, um poder paralelo que controla a regra mais elementar da democracia, que é uma que se espera que seja uma competição livre e minimamente iguais entre partidos e candidatos. Neste caso, deixa de existir.", afirma o professor.

O professor Cléber de Deus destaca que hoje o crime organizado detém uma parcela importante do PIB nacional, em uma situação em que o dinheiro ilícito é lavado em diversos setores da economia, como transportes, combustíveis e até empresas de tecnologia. Ele cita o exemplo do Rio de Janeiro, onde boa parte da população vive em territórios dominados por facções e é obrigada a pagar “pedágios” sobre serviços básicos como gás, internet, energia e água.

"Se eu não tiver a possibilidade de me deslocar, de ir e vir, isso já fere minha soberania. Se eu estou pagando internet, energia, gás, tudo com um pedágio para exercer uma atividade econômica, que soberania temos? A gente não tem mais isso porque o estado passa a não ter mais a cumprir uma das suas funções principais.", destaca o professor.