Seis décadas de uma obra que ajudou a construir a identidade visual do Piauí ganham uma nova leitura em Teresina. A exposição “Nonato Oliveira – 60 anos de cores e memórias” está aberta ao público na Galeria Dora Parentes, no Sesc Cajuína, reunindo pinturas de coleções particulares e acervos públicos que percorrem a trajetória de um dos artistas mais importantes do Estado.
A visitação do evento, completamente gratuita, começou na última quinta-feira (02) e segue até o dia 20 de agosto, das 10h às 20h, com entrada gratuita. Algumas das obras que fazem parte da exposição nunca haviam sido apresentadas ao grande público.
Mais do que celebrar uma marca na carreira, a mostra funciona como um mergulho na formação estética de Raimundo Nonato de Oliveira, conhecido nacional e internacionalmente por transformar o cotidiano nordestino em imagens marcadas por cores intensas, personagens populares e referências à cultura brasileira.
Nascido em 1949, na zona rural de São Miguel do Tapuio, Nonato começou a pintar ainda adolescente. Autodidata, improvisava seus primeiros trabalhos com sobras de materiais de construção e restos de tinta do pai, pedreiro.
Da infância no interior vieram também as memórias que, décadas depois, se transformariam em uma das assinaturas mais reconhecidas de sua produção artística. Oliveira ainda teve grande influência artística de seu tio, Mestre Dezinho, reconhecido como um dos artistas mais importantes na história da arte piauiense.
“O que eu conto é a vida do povo piauiense, a beleza de cada um, a cultura popular, o folclore, a religião. Levei isso para a Europa, para os Estados Unidos e para o México”, resume o artista. Em sua obra, o sertão aparece distante dos estereótipos, revelando personagens, festas, crenças e paisagens que atravessam gerações.
Das tintas naturais às galerias internacionais
As cores, talvez a característica mais marcante da pintura de Nonato Oliveira, também nasceram da experiência. Antes de conhecer tintas industrializadas, o artista produzia seus próprios pigmentos utilizando barro, madeira, folhas, frutos e fibras naturais, técnica inspirada nos conhecimentos indígenas que marcaram sua infância.
“Quando fui para Teresina, vi pela primeira vez uma casa de tintas. Mas tudo o que aprendi foi com os indígenas brasileiros”, recorda. Segundo ele, essa influência permanece presente em sua produção, assim como a valorização das contribuições dos povos originários e da cultura africana para a formação da identidade brasileira.
Ao longo dos últimos 60 anos, a carreira extrapolou as telas. Além de pinturas, Nonato produziu esculturas, monumentos e murais espalhados por diferentes cidades brasileiras, integrando escolas, hotéis e espaços públicos. Seu estilo, frequentemente descrito como uma combinação entre o primitivismo e o expressionismo, tornou-se uma referência nas artes visuais piauienses.
O artista também construiu uma trajetória internacional. Viveu por cerca de dez anos em Paris, onde ficou amigo de um dos maiores artistas do último século, Pablo Picasso. Na Europa, realizou exposições individuais em países como França, Portugal, Itália, Inglaterra e Noruega, além de participar de mostras coletivas nos Estados Unidos.
No Piauí, o trabalho de Nonato Oliveira é amplamente reconhecido. Ele é autor de uma das obras mais conhecidas do estado, “Cabeça de Cuia e as Sete Marias Virgens”, instalada no Encontro dos Rios, em Teresina.
Legado familiar
Para a filha, Cândida Oliveira, a dimensão pública da trajetória do pai só ficou evidente com o passar dos anos. “Eu nunca reconheci meu pai como artista. Para mim, ele sempre foi pai. Só comecei a entender quem ele era quando via as pessoas parando para tirar foto, pedir autógrafo e demonstrar carinho. Hoje, ver esses 60 anos é muito emocionante, porque acompanhamos toda a luta que existiu por trás dessa história”, afirma.
Curador da exposição e também filho do artista, Sérgio Donato destaca que conviver com Nonato significou crescer cercado pela arte. Segundo ele, o ambiente de casa influenciou diretamente sua formação e a homenagem busca reconhecer uma trajetória que pertence não apenas à família, mas também à cultura piauiense.
A exposição apresenta esse percurso por diferentes fases da produção de Nonato Oliveira, permitindo ao visitante acompanhar as transformações de seu trabalho sem perder de vista aquilo que permaneceu constante ao longo das décadas: o compromisso de traduzir, em formas e cores, as memórias, a cultura e os personagens do Piauí.