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Acúmulo de lixo pode ser sinal de transtorno mental e exige acolhimento, alerta psicóloga

Em menos de uma semana, duas residências com grande acúmulo de resíduos foram identificadas em Teresina. A primeira, no bairro Promorar, zona Sul da capital, mobilizou equipes da Prefeitura, que já retiraram mais de 31 toneladas de materiais do imóvel. Dias depois, uma nova ocorrência foi registrada no bairro Novo Milênio, na zona Sudeste, onde cerca de 3,5 toneladas de resíduos já haviam sido removidas, com previsão de chegar a cinco toneladas.

Embora as duas situações envolvessem grande quantidade de materiais acumulados, os casos são diferentes. No Promorar, o morador apresentava transtorno de acumulação. Já no bairro Novo Milênio, o acúmulo estava relacionado à atividade de reciclagem, utilizada como fonte de renda pelo proprietário.

Divulgação/SDU Sudeste
Acúmulo de lixo pode ser sinal de transtorno mental e exige acolhimento, alerta psicóloga

A psicóloga Brenda Stefany explica que nem todo acúmulo de objetos caracteriza um transtorno mental. Segundo ela, guardar itens por apego ou organização é um comportamento comum. O problema surge quando a pessoa perde a capacidade de descartar objetos, mesmo aqueles sem qualquer utilidade.

Guardar objetos por apego ou para organização é algo comum. Agora, o transtorno de acumulação ocorre quando a pessoa apresenta uma dificuldade que seja persistente em descartar itens, mesmo aqueles sem utilidade, porque acredita que podem ser importantes no futuro ou sente intenso sofrimento ao pensar em se desfazer deles

Brenda Stefany psicóloga

Entre os principais sinais de alerta, a especialista destaca o excesso de objetos espalhados pelos ambientes da casa, comprometendo sua utilização, além dos impactos na vida social e familiar. Segundo Brenda, o comportamento deixa de ser apenas um hábito quando começa a comprometer a qualidade de vida do indivíduo e daqueles que convivem com ele.

“Isso pode acontecer quando os objetos impedem o uso adequado de um cômodo da casa ou aumentam o risco de incêndios, de quedas, de proliferação de insetos e doenças, além de gerar conflitos familiares, isolamento social, ansiedade e sofrimento emocional. Nesses casos é importante buscar ajuda especializada”, ressalta a psicóloga, que alerta: retirar os objetos sem autorização da pessoa não é a melhor estratégia e pode agravar o quadro.

“Retirar os objetos sem o consentimento da pessoa pode aumentar drasticamente o sofrimento, a ansiedade e até prejudicar o vínculo familiar, gerando uma quebra de confiança e maior resistência em aceitar ajuda e tratamento. O ideal é agir com acolhimento, com uma escuta empática, sem julgamento, estabelecendo um diálogo. A família deve incentivar a busca por acompanhamento psicológico, respeitando o ritmo do paciente e participando do tratamento sempre que possível”, orienta.

Divulgação/SDU Sudeste
Acúmulo de lixo pode ser sinal de transtorno mental e exige acolhimento, alerta psicóloga

A profissional reforça ainda que o transtorno de acumulação não deve ser confundido com desorganização ou falta de vontade. “É importante lembrar que o transtorno de acumulação não é preguiça, desorganização ou falta de vontade. Trata-se de um transtorno de saúde mental que merece acolhimento, compreensão e tratamento especializado. Quanto mais cedo for identificado, maiores são as chances de promover qualidade de vida para a pessoa e para toda a sua família.”

Brenda Stefany destaca que o acompanhamento psicológico é essencial para compreender as causas do comportamento e reduzir os prejuízos causados pela condição. Em alguns casos, o tratamento também pode envolver acompanhamento psiquiátrico, com intervenção medicamentosa, porque o transtorno de acumulação pode estar relacionado também a sintomas de ansiedade.

“Embora esse processo seja gradual, com uma intervenção adequada, o apoio da família e o comprometimento do paciente, é possível reduzir significativamente os sintomas e melhorar a qualidade de vida”, acrescenta.

Assistência social acompanha moradores

No caso registrado na zona Sudeste, a coordenadora de Habitação e Assistência Social da SDU Sudeste, Rose Melo, explica que a atuação da Prefeitura começou após uma denúncia encaminhada à Ouvidoria.

“Recebemos uma denúncia através da Ouvidoria da SDU Sudeste. O superintendente pediu que fizéssemos uma visita, uma escuta nesse primeiro momento. Nossa equipe de assistentes sociais, juntamente com a fiscalização, esteve na casa conversando com o senhor”, relata.

Assis Fernandes/ODIA
Acúmulo de lixo pode ser sinal de transtorno mental e exige acolhimento, alerta psicóloga

Após a visita, foi constatado que o acúmulo não estava relacionado a um transtorno mental e que o morador usa esses meios de reciclagem para sustento de vida. Entretanto, à medida que o tempo foi passando, ele foi acumulando e alguns produtos deixaram de ter valor para venda. Segundo Rose, diferentemente do caso registrado na zona Sul, no imóvel da zona Sudeste não havia resíduos orgânicos.

“Nesse caso não havia restos de animais ou alimentos. Eram resíduos de reciclagem mesmo. Aqui não tinha mau cheiro, mas algumas pessoas relataram preocupação com a proliferação de mosquitos por causa da acumulação”, disse.

A assistente social da SDU Sudeste, Tainara Cavalcante, afirma que, além da limpeza do imóvel, o trabalho da Prefeitura inclui acompanhamento social e encaminhamentos para a rede de assistência.

Divulgação/SDU Sudeste
Acúmulo de lixo pode ser sinal de transtorno mental e exige acolhimento, alerta psicóloga

“Ao fazer o levantamento de informações, realizamos o cadastro socioeconômico e encaminhamos solicitação à Semcaspi, junto ao CRAS, para verificar se cabe a ele um BPC/Loas, inclusão em algum programa social, solicitação de cesta básica, kits emergenciais e também acompanhamento da agente de saúde do bairro”, explica.

Ela acrescenta que, após a retirada dos materiais, uma equipe técnica retornará ao imóvel para avaliar as condições estruturais da residência. Segundo Tainara, a Prefeitura também acompanha outros casos semelhantes na capital e, quando há suspeita de transtorno de acumulação, o atendimento é realizado de forma gradual, priorizando o acolhimento e a construção de vínculo antes de qualquer intervenção.