O Hospital São Marcos está pedindo uma complementação de R$ 4,2 milhões por mês para manter o atendimento aos pacientes oncológicos no Piauí. Essa complementação soma por ano um total de R$ 50,4 milhões. Os números foram informados durante coletiva de imprensa na manhã desta segunda (06), após o hospital anunciar a suspensão dos atendimentos oncológicos esgotamento financeiras.
Mantido pela Associação Piauiense de Combate ao Câncer, o São Marcos responde sozinho por mais de 90% dos atendimentos oncológicos do Piauí e por praticamente 100% dos casos de câncer infantil no Estado, com cem leitos de internação dedicados exclusivamente ao SUS.
Segundo os dados apresentados pelo hospital, entre maio de 2025 e abril de 2026, foram realizados na instituição 59.325 sessões de quimioterapia (média de 4.944 por mês), 2.039 sessões de radioterapia, 5.524 internações oncológicas, 39.823 consultas e atendimentos em oncologia e 192.707 procedimentos ambulatoriais totais.
Conforme os documentos apresentados pela direção do São Marcos, o volume de produção mostra que o hospital sustenta quase sozinho toda a rede de assistência oncológica de alta complexidade do Piauí. É justamente o volume de atendimentos que vem sendo usado como principalmente para o pedido de incremento no aporte financeiro.
Hoje, o Hospital São Marcos recebe cerca de R$ 6 milhões por mês pela Tabela SUS, o equivalente a R$ 72 milhões por ano. A isso, se soma um auxílio da Secretaria de Estado da Saúde do Piauí (Sesapi) de R$ 900 mil mensais, cerca de 15% a mais sobre a produção (custos com atendimentos e procedimentos).
Para demonstrar o que chamou de “distorção”, o hospital elaborou um comparativo com outras instituições oncológicas do Brasil, usando como indicador um multiplicador, ou seja, quantas vezes o valor total recebido por cada hospital supera o que ele de fato produziu pela Tabela SUS. Nessa comparação, hospitais como o Oncológico Infantil do Pará recebe 4,51x mais que a produção mensal; a Fundação Pio XII e o Hospital de Barretos, em São Paulo, recebem cerca de 3,91x a mais.
“O Hospital Oncológico do Pará, para cada criança que ele trata, recebe 4,5x a Tabela do SUS. O São Marcos recebe 1,1x. o Hospital de Barretos, quando trata um paciente, ele recebe 3,9x a Tabela do SUS. O São Marcos recebe 1,1x. Quando comparo com os pares e quando falamos em valores isolados, a diferença é absurda. Então o São Marcos passa por dificuldades financeiras por subfinanciamento, não por excesso de custos”, disse Marcelo Martins, diretor técnico do hospital.
O Hospital São Marcos aparece como a instituição proporcionalmente menos remunerada, recebendo pouco mais de 1x o que estritamente produz. Isso, segundo a direção, deixa a instituição sem qualquer margem para custear a manutenção da estrutura hospitalar. A complementação mensal adicional de R$ 4,2 milhões resultaria em uma produção SUS de R$ 72 milhões anuais (o que o hospital já recebe), na recomposição de R$ 50,4 milhões por ano e no incremento total de R$ 122,4 milhões anuais, somados os dois valores.
Mas, mesmo com a recomposição integral concedida, o São Marcos argumenta que seu índice de remuneração chegaria a apenas 1,70x, ainda abaixo da maioria dos hospitais do país. Segundo o documento apresentado pela diretoria do hospital, não se trata de um pedido de tratamento privilegiado, mas da correção de uma distorção que coloca a instituição em uma situação de financiamento inferior à de outras entidades do tipo no país.
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Risco iminente de interrupção dos atendimentos
O documento revela, ainda, que o Hospital São Marcos recorreu a medidas extraordinárias para se manter em funcionamento ao longo de 2025. Um precatório no valor de R$ 33 milhões foi vendido para quitar dívidas com fornecedores e o hospital diz que contraiu empréstimos superiores a R$ 20 milhões. Segundo a instituição, esse endividamento chegou a atrasar o tratamento de mais de mil paciente no ano passado.
Com os recursos esgotados, o São Marcos diz que há risco iminente de interrupção dos serviços oncológicos.
Mais da metade dos pacientes atendidos no São Marcos são do interior
A direção do Hospital São Marcos diz que a crise financeira que ameaça a continuidade dos atendimentos não é um problema isolado de Teresina, mas que afeta diretamente pacientes de todo o interior do Estado. Segundo Marcelo Martins, diretor-técnico do hospital, mais da metade dos atendidos pelo São Marcos vem de fora da capital.
“Atendemos a piauienses de todos os municípios. Apenas 41% dos pacientes atendidos por nós são da região Entre Rios, onde Teresina está situada. 59% dos pacientes atendidos aqui são de outros municípios do Piauí”, diz Marcelo, lembrando que o São Marcos também é pactuado com o Governo do Maranhão e atende a pacientes de 27 municípios maranhenses.
No entanto, segundo o diretor, essa abrangência regional não se reflete no financiamento recebido. “O Maranhão contribui em média com R$ 1 milhão por mês por 27 municípios. O Piauí contribui com R$ 900 mil por mês”, apontou Marcelo, destacando uma desproporção entre o volume de pacientes do interior atendidos com o valor da complementação estadual.
O outro lado
O financiamento do Hospital São Marcos é tripartite, ou seja, feito com recursos do Ministério da Saúde, do Governo do Estado e da Prefeitura. O Portalodia.com entrou em contato com a Sesapi e com a Fundação Municipal de Saúde para pedir um pronunciamento sobre as alegações feitas pela direção do hospital. A reportagem aguarda retorno e o espaço segue aberto para esclarecimentos.