O Bumba Meu Boi é uma das manifestações mais emblemáticas da cultura popular brasileira. Misturando teatro, música, dança, religiosidade e tradição oral, a brincadeira atravessa gerações e continua viva graças às comunidades que mantêm seus rituais, personagens e histórias. Embora seja amplamente associado aos festejos juninos, o Bumba Meu Boi vai muito além das apresentações públicas: ele representa um patrimônio cultural construído coletivamente e transmitido de geração em geração.
Segundo a historiadora e pesquisadora do patrimônio cultural Viviane Pedrazzani, a narrativa mais conhecida gira em torno do desejo de Catirina, grávida, de comer a língua do boi preferido do fazendeiro. Para atender ao pedido da esposa, Pai Chico mata o animal, desencadeando uma sequência de acontecimentos que, na maior parte das versões, termina com a ressurreição do boi. "No entanto, essa narrativa não é única nem imutável. Ela varia conforme a região, o grupo e a tradição transmitida pelos mestres", explica.
A pesquisadora destaca que não existe um único local de origem da manifestação. Para ela, o Bumba Meu Boi foi sendo construído ao longo do tempo a partir do encontro das culturas indígena, africana e europeia, profundamente ligado ao ciclo da pecuária e às festas populares brasileiras.
No Piauí, por exemplo, o Bumba Meu Boi adquiriu formas particulares de organização, musicalidade, personagens e modos de celebrar, constituindo uma tradição com identidade própria
Viviane Pedrazzani explica que a força dessa manifestação está justamente na capacidade de reunir diferentes aspectos da vida em comunidade, e que a festa começa muito antes da apresentação ao público.
"Não se trata apenas de um espetáculo apresentado durante os festejos juninos. É uma manifestação que envolve memória, religiosidade, música, dança, teatro, artesanato, transmissão de saberes e fortalecimento dos vínculos comunitários. Ela envolve a construção do boi, a confecção das indumentárias, a fabricação dos instrumentos, os ensaios, o batismo, as apresentações e, por fim, o ritual da morte do boi. Cada uma dessas etapas mobiliza famílias, vizinhos e diferentes gerações, criando uma rede de cooperação e pertencimento", disse.
Essa participação coletiva, segundo a historiadora, explica por que a tradição permanece viva até hoje. No Piauí, especialmente em Teresina, diversos grupos seguem preservando essa herança cultural. Entre eles estão o Imperador da Ilha e o Dominador do Sertão, referências na capital.
"Ele não é uma tradição congelada no passado. Ao contrário, renova-se continuamente sem perder sua identidade, permitindo que cada geração se reconheça como parte dessa história. Mais importante do que contabilizar quantos grupos existem é compreender que cada um deles representa um espaço de transmissão de conhecimentos entre gerações. Nos grupos, crianças e jovens aprendem cantos, ritmos, danças, técnicas artesanais, formas de organização coletiva e valores ligados ao respeito pelos mestres e pela memória da comunidade", afirma.
Para Viviane Pedrazzani, manter o Bumba Meu Boi vivo é garantir que as novas gerações conheçam sua própria história e fortaleçam sua identidade cultural. "Trata-se de garantir que as novas gerações tenham contato não apenas com uma manifestação artística, mas com uma forma de compreender a própria história, fortalecer a identidade cultural e reconhecer o valor da diversidade que caracteriza a cultura brasileira. A continuidade dessa tradição demonstra que o Bumba Meu Boi permanece sendo um patrimônio vivo, constantemente recriado pelas comunidades que o mantêm”, conclui a pesquisadora.
Quase um século mantendo viva a tradição do Bumba Meu Boi
Com quase um século de história, o Boi Imperador da Ilha atravessa gerações e continua sendo um dos principais símbolos da cultura popular em Teresina. Fundado em 1934, o grupo nasceu na região da Piçarra e, desde 1957, está instalado no bairro Monte Castelo, onde reúne familiares e moradores em torno da tradição.
O atual mestre do boi, Raimundo, cresceu acompanhando a brincadeira e hoje é responsável por dar continuidade ao legado iniciado por dona Eva, fundadora do grupo. "Começou a ser fundado em 1934 pela dona Eva, ali no bairro da Piçarra. Em 1957 nós mudamos para cá. Ela já estava cansada e entregou o boi para os filhos e para o marido. Depois meu pai assumiu e, quando ele faleceu, em 2012, eu já estava à frente do grupo desde 1987", conta.
A continuidade do Imperador da Ilha acontece, principalmente, por meio da própria família. Filhos, netos e bisnetos participam da organização, confeccionam fantasias, produzem instrumentos e ajudam na realização das apresentações.
"Tem sobrinho, neto, bisneto. Aqui é a família e os amigos. Meu filho é o presidente, eu faço os pandeiros, acompanho a produção. Quando precisa, a gente tira dinheiro do próprio bolso para manter o boi”, conta.
Tradição se mantém e resiste às dificuldades
Se por um lado a tradição permanece viva, por outro os desafios para mantê-la aumentam a cada ano. Mestre Raimundo explica que o custo das apresentações cresceu, enquanto o apoio financeiro diminuiu, tornando cada temporada uma verdadeira luta. Segundo ele, a redução dos investimentos também contribuiu para o desaparecimento de diversos grupos tradicionais da capital.
"A dificuldade é grande. Hoje tudo é à base de projeto. Este ano muitos projetos não passaram e a gente ficou devendo costura e outras despesas. Vamos pagando conforme fazemos as apresentações. O carnaval praticamente acabou, o reisado também. Nós éramos 24 grupos de boi em Teresina. Hoje restam apenas oito, todos resistindo com muita dificuldade”, contou.
Na avaliação do Mestre, preservar o Bumba Meu Boi exige políticas públicas permanentes voltadas à cultura popular. Outro desafio é despertar o interesse das novas gerações. Raimundo lembra que, antigamente, as crianças disputavam um lugar na brincadeira. Hoje, a realidade é diferente. "Antigamente, os meninos queriam vestir a roupa da Catirina, brincar no boi. Hoje, o material humano está difícil. Os jovens não têm mais o mesmo interesse”, lamenta.
Para Raimundo, preservar o Imperador da Ilha é preservar parte da história e da identidade cultural de Teresina. E, mesmo diante do cenário atual, ele garante que continuará fazendo o possível para manter viva a tradição e o compromisso, que, segundo ele, nasceu de um pedido feito pelo pai pouco antes de morrer.
"A minha vida é essa daqui. Tenho mais de 75 anos dentro do grupo e enquanto eu puder, vou continuar lutando para que essa tradição não se perca. Antes de Deus levar ele [pai], pediu para que eu não deixasse a brincadeira acabar. Ele nem falou no boi. Falou na brincadeira. Desde então, faço de tudo para que ela continue existindo”, concluiu Mestre Raimundo.
Estrela da Noite mantém tradição do Bumba Meu Boi viva há 16 anos em Teresina
Criado em 2010, o Bumba Meu Boi Estrela da Noite é um dos grupos que ajudam a manter viva uma das mais tradicionais manifestações da cultura popular piauiense. Fundado pelo vaqueiro Chico Diva, o grupo surgiu da paixão que ele cultivava desde a infância pela brincadeira do boi e, desde então, reúne famílias, jovens e crianças em torno da preservação dessa tradição.
A coordenadora do grupo, Rejane da Silva Souza, explica que a origem do Bumba Meu Boi remonta ao período colonial, quando a economia do Piauí era baseada na pecuária. Segundo ela, a manifestação nasceu da conhecida lenda de Nêgo Chico e Catirina e permanece representada nas apresentações atuais, que reúnem personagens, danças e elementos das culturas indígena e africana.
“As danças trazem elementos da cultura indígena e africana, envolvendo o batuque do pandeiro e o chiado da chiadeira. Em Teresina, os grupos preservam a tradição da raiz e apresentam figurinos coloridos, com brilho de paetês, miçangas e canutilhos”, destaca.
Resistência cultural
Apesar da força da tradição, o número de grupos diminuiu ao longo dos anos. Rejane afirma que, se antes Teresina contava com cerca de 30 bois, atualmente apenas oito permanecem em atividade. Para garantir a continuidade da manifestação, os grupos têm buscado ampliar sua presença em eventos públicos e escolas. O Estrela da Noite, inclusive, criou um boi mirim formado exclusivamente por crianças.
“Hoje a brincadeira do boi vive um processo de reestruturação, pois devido ao encerramento de muitos grupos a figura do boi foi perdendo espaço nos arraiais. Mas a população não esquece. Sempre que chegamos em um arraial, as pessoas dizem: ‘faz tempo que eu não tinha a alegria de ver a dança do boi’”, relata Rejane.
Um legado passado entre gerações
O grupo nasceu do sonho de Chico Diva, que desde criança acompanhava o Bumba Meu Boi levado pela mãe. Depois de atuar durante anos como vaqueiro em outros grupos, decidiu criar sua própria agremiação, convidando jovens e crianças da comunidade para os primeiros ensaios. Em 24 de junho de 2010, o Estrela da Noite foi oficialmente batizado e passou a integrar os festejos juninos da capital. Dois anos depois, o grupo sofreu uma grande perda com a morte de seu fundador.
“No ano de 2012, o grupo perde o seu mais importante membro. O seu fundador, Chico Diva, faleceu após um infarto. A ideia era continuar somente naquele ano para cumprir os eventos agendados, mas a família resolveu manter o trabalho. Desde então, o Estrela da Noite segue suas atividades anualmente, conduzidas pelo Mestre Banja e pela família de Chico Diva”, enfatiza.
Para que a tradição continue viva, o grupo aposta na aproximação com crianças e adolescentes. Além do boi mirim, os integrantes realizam apresentações e palestras em escolas, utilizando a própria lenda do Bumba Meu Boi como ferramenta educativa.
“Para encantar a juventude, temos buscado garantir a presença do boi nas escolas. Apresentamos os aspectos históricos e sociais da lenda, abordando o período da escravidão, a história de Nêgo Chico e Catirina e levantando a pauta antirracista. Assim, mostramos o boi como uma manifestação que representa alegria, identidade e também resistência”, conclui Rejane Souza.
Mais de sete décadas acompanhando o Boi
Aos 80 anos, a aposentada Isabel Ferreira da Silva acompanha o Bumba Meu Boi Imperador da Ilha desde a adolescência. Ela lembra que começou a seguir o boi aos 14 anos, quando o bairro Monte Castelo ainda era cercado por mato e a brincadeira reunia moradores que percorriam longas distâncias para acompanhar as apresentações.
Ao longo de mais de 70 anos, dona Isabel viu a tradição atravessar gerações. Ela conta que acompanhou a passagem do comando do grupo do antigo mestre Antônio para o filho, Raimundo, e hoje também observa os netos da família ajudando a manter viva a manifestação.
Para ela, o Bumba Meu Boi representa muito mais do que uma brincadeira popular, é uma ligação entre a manifestação e a religiosidade. "É muito bom para a gente. Quando vai ter a festa, todo mundo vem para cá. Eu acho muito bonito. Tem a questão religiosa também. É importante, é muito bonito", diz.
Mesmo após sete décadas acompanhando o grupo, dona Isabel continua presente nas celebrações e acredita que preservar o Bumba Meu Boi é manter viva a cultura popular.
Incentivo público busca fortalecer tradição centenária
A preservação do Bumba Meu Boi também depende de políticas públicas voltadas ao fortalecimento dos grupos culturais. Nos últimos anos, editais de fomento e ações de incentivo passaram a contribuir para a manutenção da tradição, permitindo que muitos grupos consigam confeccionar figurinos, adquirir materiais e manter as apresentações.
O secretário de Estado da Cultura, Rodrigo Amorim, destaca que o Bumba Meu Boi piauiense é uma das manifestações mais antigas do país e possui características próprias que diferenciam os grupos do estado. Segundo ele, o Imperador da Ilha representa esse patrimônio vivo ao manter uma tradição que atravessa gerações.
"A lenda que percorre a região de Parnaíba e Teresina conta a história do boi do Piauí. Cada boi e sua região têm a sua característica. A gente percebe a importância de manter essa tradição, porque existe toda uma ancestralidade relacionada à manutenção desse patrimônio vivo do Piauí. É uma tradição passada de geração para geração e que envolve também as crianças”, conta.
O secretário ressalta que os investimentos realizados pelo Governo do Estado, por meio do Sistema Estadual de Incentivo à Cultura (SIEC) e da Política Nacional Aldir Blanc, ajudam a garantir a continuidade dos grupos.
"Cada ano o Governo do Estado investe cada vez mais no boi do Piauí. Hoje você vê um espetáculo nas apresentações, com personagens tradicionais como a Catirina, a princesa e tantos outros que representam essa história."
Já o deputado estadual Fábio Novo lembra que, antes da criação dessas políticas, foi realizado um mapeamento dos grupos existentes em Teresina para compreender suas necessidades e estruturar ações permanentes de apoio. Segundo ele, além do incentivo financeiro, os grupos passaram a ser orientados para se organizarem formalmente e terem acesso aos editais públicos.
"Mapeamos os bois aqui em Teresina e começamos a desenvolver uma política, por meio da Secretaria de Cultura, para fomentar esses grupos que precisavam de recursos para confeccionar vestimentas e manter suas atividades. Estimularmos que esses grupos se constituíssem como CNPJ. O Imperador da Ilha é um exemplo disso. Hoje ele consegue acessar recursos por meio do SIEC e também da Política Nacional Aldir Blanc”, disse.
Fábio Novo acrescenta que a Secretaria de Cultura também promoveu oficinas para capacitar os grupos na elaboração de projetos culturais. "Foram feitas oficinas de capacitação e vários grupos de bois foram contemplados. É preciso manter essas políticas de forma permanente para que esses grupos possam acessar os recursos e manter viva a tradição do boi”, complementa.