A campanha aérea e naval ocidental denominada Operação Epic Fury, iniciada em 28/02/2026, provocou uma ruptura estrutural no equilíbrio de poder no Médio Oriente. Apesar de haver desgastado taticamente as forças armadas convencionais do Irã, o conflito falhou no objetivo de derrubar o regime teocrático iraniano e resultou numa vitória estratégica da República Islâmica, que emerge do conflito como uma superpotência hegemônica regional.
No caso de Teerã, a capacidade de projeção de poder, que caracteriza uma superpotência, baseia-se nos seus proxies, o Hezbollah, o Hamas, as milícias xiitas iraquianas e os insurgentes Houthis, que formam o "Eixo da Resistência". Antes do conflito, a subordinação de tais grupos armados ao Irã oscilava, devido ao temor de um colapso do regime iraniano em caso de ataque direto dos EUA e de Israel. Contudo, ao resistir às forças da coalisão, o Irã deu a prova de resiliência que faltava para solidificar o alinhamento desses proxies sob a liderança de Teerã.
A guerra consagrou o triunfo da assimetria. O Irã exauriu os sistemas de defesa aliados ao saturar o espaço aéreo com drones unidirecionais Shahed-136, de custo unitário entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, e mísseis balísticos de fragmentação capazes de liberar até 30 ogivas terminais. Essa estratégia forçou a coalizão a consumir caros e escassos estoques de interceptadores Patriot, ao custo de US$ 4 milhões a unidade, e sistemas THAAD, de até US$ 15 milhões por disparo, para sua defesa. Ficou demonstrado que em combates de alta intensidade restritos aos vetores balísticos, sem incursão terrestre (boots on the ground), a vantagem pende para o lado de Teerã.
Antes do conflito, sabia-se que o Irã tinha certa capacidade balística, mas não se conhecia a sua dimensão, a profundidade de seu alcance, nem o seu nível de precisão. Certamente contando com a rede de satélites BeiDou da China e inteligência geoespacial russa, a precisão dos ataques iranianos surpreendeu os EUA, que sofreram consideráveis danos militares, tendo sido obrigados a evacuar temporariamente suas bases na região. Depois de Trump assegurar que todo o potencial de lançamento do Irã estava aniquilado, descobriu-se que o país ainda dispõe de vários milhares de projéteis, que capacitam o país a manter um conflito de alta intensidade contra os Estados Unidos e Israel por mais tempo do que os EUA poderiam resistir, dadas as consequências econômicas e políticas da guerra.
O conflito deve levar à recalibragem da doutrina de segurança de Teerã, que até então tratou o seu programa de enriquecimento de urânio como ativo de barganha diplomática, na busca pelo alívio das sanções impostas a partir de 2010. O seu programa nuclear deve passar a ser encarado como imperativo da preservação da soberania, uma vez que os outros meios de dissuasão, como a sua capacidade balística, os proxies e a ameaça de fechamento do Estreito de Ormuz não foram suficientes para evitar o ataque da coalisão ocidental. O Irã tenderá a acelerar o seu programa nuclear visando a dissuasão, enquanto investe na reconstrução das suas forças convencionais, gravemente degradadas no conflito, o que reduz ainda mais a chance de satisfação de um segundo objetivo declarado da coalisão ocidental: evitar que o Irã tenha a bomba atômica.
Por outro lado, o fiasco da Operação Epic Fury servirá como uma dissuasão contra futuras ações dos EUA, o que é mais uma demonstração da nova hegemonia iraniana na Região. Há décadas Netanyahou insistia para que Washington lançasse uma guerra de mudança de regime contra o Irã, tentando fazer os EUA acreditarem que tudo seria fácil e rápido. Todos os presidentes anteriores resistiram, apenas Trump se deixou seduzir. Diante da humilhação sofrida pelos EUA, a chance de que um outro presidente americano aceite intervir na região nas próximas décadas são mínimas. De repente, o Irã se vê muito mais à vontade para expandir sua atuação na região, aumentando sua influência sobre o Iraque e o Líbano ou até estabelecendo uma tutela política de fato sobre parte do território do Afeganistão, para alcançar recursos hídricos e proteger a população que guarda traços culturais e linguísticos com o Irã.
A demonstração de que o Irã tem o poder de fechar o Estreito de Ormuz e que os americanos não podem reabri-lo à força, estando limitados às contramedidas do bloqueio naval, reduz a capacidade dos EUA imporem sansões contra o Irã, diante do risco de o Irã retaliar através de Ormuz. Outrossim, a falha estratégica dos EUA expôs os limites de seu guarda-chuva de segurança para a região. Os países do Golfo, que antes se alinhavam aos Estados Unidos em busca de proteção, tendem a se aproximar do Irã para manterem o acesso através de Ormuz aos mercados internacionais, dos quais dependem as suas economias.
Exemplo claro dessa inflexão foi a postura da Arábia Saudita, aliado histórico dos EUA contra o Irã, que durante o conflito proibiu o exército americano de utilizar as bases sauditas e o seu espaço aéreo para missões ofensivas contra solo iraniano, o que inviabilizou a Operação Project Freedom (Operação Projeto Liberdade), que consistia na escolta de navios comercias através do Estreito. Também a constatação de que a infraestrutura petrolífera e as usinas de dessalinização de água não estavam seguras contribuiu para forçar essa guinada pragmática das monarquias do Conselho de Cooperação do Golfo na direção de Teerã.
Buscando se capacitar para estabelecer um bloqueio duplo simultâneo, que, além do Estreito de Ormuz, inclua o Estreito de Bab-el-Mandeb, o Irã aumenta a transferência de mísseis antinavio e radares de guiamento para o seu proxy, os Houthis no Iêmen, sabendo que o controle coordenado desses dois chokepoints mundiais confere ao país uma alavanca de pressão sem precedentes sobre o comércio internacional.
No aspecto econômico, a suspensão das sanções em vigor desde 2010, com a liberação de fundos bloqueados e o acesso do Irã ao mercado internacional, somada às receitas da provável cobrança de pedágio pela Autoridade do Estreito do Golfo Pérsico (PGSA), em Ormuz, proporcionará ao país os fundos necessários para a reconstrução e ampliação de suas forças armadas e para o financiamento dos proxies. Rejeitando o livre trânsito estabelecido pela Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (UNCLOS), sob o argumento de nunca ter ratificado o tratado, Teerã tentará criar uma arquitetura de acesso a Ormuz que imponha tarifas de US$ 1,5 milhão a US$ 2,0 milhões por cruzamento a navios comerciais que transportem insumos através do Estreito. Uma vez que o Irã implemente a medida, as companhias seguradoras devem condicionar o seguro de frete, que é indispensável para o tráfego marítimo, ao pagamento do pedágio, por temor de ataques às naus pela Guarda Revolucionária. O custo acabará recaindo sobre os países exportadores, para que o custo do petróleo do golfo não ultrapasse o preço do mercado internacional.
No plano interno, o estado de sítio ofereceu o pretexto ideal para sufocar a contestação civil que se via antes do início do conflito. A narrativa oficial deve justificar as privações econômicas, humanas, políticas e diplomáticos impostas ao povo iraniano até hoje com a alegação de que se tratava de um sacrifício profético necessário para deter a agressão externa, que acabou se consumando. Os movimentos oposicionistas perdem força e serão desmantelados sob a acusação de traição contra o regime que defendeu o país. De outro lado, a suspensão das sansões mostrará que o sacrifício terá valido a pena.
Poucos equívocos estratégicos são carregados de tantas consequências geopolíticas.
Fontes de Pesquisa e Referências:
· Chaque Jour sur Terre (Benjamin Tremblay) – Análise político-militar e macroeconômica detalhada no documentário "Cette guerre fera de l’Iran une superpuissance" (maio de 2026), base para a tese de assimetria de custos e projeção de poder regional pós-conflito.
· Dados de Inteligência e Geodesia Aeroespacial – Relatórios e registros técnicos sobre o acionamento da rede de satélites chinesa BeiDou e o fornecimento de dados geoespaciais pela Federação Russa em suporte aos sistemas de mísseis iranianos.
· Análises de Custos de Defesa e Balística – Levantamentos de economia de defesa sobre o custo unitário de vetores assimétricos (família Shahed-136) em contraposição ao custo de interceptação terminal de baterias Patriot PAC-3 e sistemas THAAD.
· Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (UNCLOS) – Documentação jurídica internacional referente ao Artigo 44 (direito de trânsito em estreitos internacionais) e o histórico de assinatura e não ratificação pelo Estado iraniano (1982).
· Registros Operacionais do CENTCOM (Comando Central dos EUA) – Relatórios e comunicados de segurança sobre o desenvolvimento e subsequente paralisia da Operação Project Freedom no Estreito de Ormuz, decorrente do veto do espaço aéreo pela Arábia Saudita.
· Dados Macroeconômicos de Câmbio e Energia – Monitoramento de mercado e relatórios de inteligência financeira sobre a desvalorização do Rial iraniano no mercado informal e a incidência fiscal do pedágio da PGSA sobre as margens dos produtores de petróleo do Golfo Pérsico.
· Cronologia e Sucessão Teocrático-Militar – Atas e registros de inteligência sobre a transição pretoriana de poder em Teerã e a ascensão formal de Mojtaba Khamenei como Líder Supremo em 14 de julho de 2026.